September 21, 2017

O que é Bitcoin

O QUE É BITCOIN

Saiba o que é e como surgiu a tecnologia que pode se tornar a maior experiência socieconômica moderna

Antes de entender o que é bitcoin, é necessário entender o que é o dinheiro.

Ao longo da história, sempre houve a busca por uma convenção para a troca de mercadorias e a mensuração de riquezas de um indivíduo. Essa necessidade é tão antiga quanto a própria vida em sociedade.

A primeira solução para as trocas foi o escambo. Se uma pessoa tinha colhido muitas frutas, mas precisava de cortes de tecido para fazer suas roupas, a solução era encontrar outra pessoa que estivesse interessado em frutas e que possuísse tecido e então realizar a troca. Esse sistema é utilizado até os dias de hoje entre os índios e alguns grupos africanos. Desde muito tempo, os mais variados artigos foram usados com essa finalidade, como o chocolate entre os astecas, bambus na China ou até mulheres escravizadas entre os antigos irlandeses.

O que é o Dinheiro | Bitcoin

Com a descoberta dos metais – ouro, prata e cobre - ficou comprovado que utilizá-los como moeda de troca era a melhor forma de troca de mercadorias e de se estabelecer um sistema monetário. Razão essa devido características inatas dos metais como escassez devido a sua dificuldade de mineração, portabilidade, divisibilidade, dificuldade de falsificação e sua durabilidade. Inicialmente eram usados em formato de linguetas ou barras, mas ao longo do tempo foram ganhado formas e inscrições.

O dinheiro pode ser simplesmente entendido como um sistema de contabilidade. Esse sistema de contabilidade tem por finalidade, de forma regulada e consentida, registrar quem possui o quê, o que se tem e em qual quantidade. Além disso esse sistema também registra quem deve o que para quem. O dinheiro é fundamentalmente isso.

Nos dias atuais, nos parece consensual a necessidade de que alguém ou algo controlasse e emitisse o dinheiro. Esse alguém também faria o papel do intermediário confiável, garantindo que o dinheiro fosse real e aceito por todos.

Acredita-se que na civilização Fenícia foram registradas as primeiras operações bancárias. O ato de emprestar, pegar emprestado e guardar dinheiro dos outros se tornou inevitável devido à conveniência e necessidade das trocas entre as pessoas para a evolução de qualquer sociedade.

Por volta do século XII, nas feiras da Europa Central, quando uma pessoa quisesse trocar ouro por algum outro produto, o banqueiro - ou o ourives - assumia o papel de pesar e avaliar a autenticidade e a qualidade dos metais, cobrando por esse trabalho uma comissão. Desde então e por séculos e mais séculos, os governos emitem e regulam o dinheiro e os grandes bancos controlam os aspectos relacionados a ele.

Entendido essa estrutura vamos ao que interessa: O que é Bitcoin?

O Bitcoin foi a primeira realização de um sistema monetário digital. O papel do banco na rede do bitcoin é plenamente desempenhado por sua tecnologia adjacente, um registro distribuído de forma global chamado blockchain. Esse registro funciona como um livro-caixa aberto, registrando todas as transações da rede do bitcoin.

O bitcoin não é controlado por uma entidade ou autoridade central, um governo ou por uma pessoa. Por essa característica, a rede do Bitcoin devolve o valor e o controle às mãos das pessoas, sem a necessidade das trocas modernas serem intermediadas por um terceiro confiável (os bancos, a visa ou o paypal, por exemplo).

Falando de novo: O Bitcoin é como o dinheiro. Um sistema de contabilidade, estruturado de forma descentralizada. Uma maneira de registrar transações, registrar valor. Digitalmente, é possível que uma pessoa realize pagamentos para outra com a mesma - ou mais - eficiência do que o dinheiro de papel.

Transações realizadas com bitcoins são rápidas, baratas e não precisam de intermediários. É certo dizer que pagar com bitcoins é mais fácil e melhor do que com papel moeda, pois de forma discreta pode-se pagar qualquer valor, para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.

O bitcoin é a primeira moeda virtual descentralizada, anônima e "instantânea". É um sistema econômico alternativo ao atual e autorregulado matematicamente. Ele é baseado na arquitetura de sistemas distribuídos chamada peer-to-peer e as novas unidades da moeda são criadas através de um processo chamado "mineração". Esse processo - superficialmente falando - envolve que a própria rede formada pelos milhares de computadores (nodes), forneça poder computacional para encontrar a solução para um problema matemático difícil. No momento em que essa solução é encontrada por um determinado computador (node) - ou cluster (aglomerado) de computadores - , ele é recompensado com a oferta de novas moedas. Dessa maneira é acrescido mais unidades na quantidade circulante total de moedas.

A tecnologia e conceitos usados na rede do Bitcoin formam a base de um ambiente de dinheiro digital.

Bitcoin é a revolução monetária. Uma solução para o futuro do dinheiro, de forma digital e descentralizada.

HISTÓRIA E SURGIMENTO

Existe realmente uma disparidade quando se fala em justiça com o atual sistema econômico e social o qual todos estamos inseridos e participamos. Essa disparidade acontece desde séculos passados e não é algo novo. É notável que o que ocorre hoje é a aplicação de uma justiça multinível, onde os mais fortes (detentores de maior poder político, social e capital) ficam impunes por sérios crimes cometidos. Entretanto, outras pessoas, geralmente desprovidas de capital financeiro e influência social, são punidas e segregadas por qualquer motivo que seja. A predatoriedade do estado por séculos permeia e destrói principalmente os mais fracos.

Cultura Cyberpunk - Bitcoin e Blockchain

A ideia de uma sociedade justa, com liberdade de ações e oportunidades para todos, baseada em uma cultura descentralizada, livre das garras reguladoras e opressoras de governos, instituições financeiras e políticas, há algumas décadas é um sonho da cultura cyberpunk. Eles tinham ciência da capacidade que a internet poderia fornecer e eram também extremamente preocupados com privacidade e liberdade individual.

No início dos anos 90, o movimento tinha uma  intensa adoração pela internet e suas possibilidades. A descoberta da criptografia moderna e a imaginação de que um mundo novo poderia ser criado dentro da internet fascinava a cybercultura.

A liberdade que seria proporcionada por um tipo de meio de troca digital anônimo, o qual seria livre das estruturas de poder central e das hierarquias seria algo inédito e revolucionário em nossa sociedade. Não possuir um controle central, um governo, uma instituição ou um banco, é um conceito libertador.

Essa ideia já havia sido esclarecida sem muita profundidade pelo membro da lista de discussão online sobre criptografia, Wei Dai. Em seu texto ele apresentava as características centrais e estruturais que poderiam ser utilizadas no protocolo de uma criptomoeda e suas potenciais aplicações práticas.

Algumas pessoas chegaram bem perto de realizarem uma moeda digital antes do Bitcoin. Em 1989, David Chaum fundou a DigiCash, um sistema de moeda virtual que acabou por decretar falência em 1998. Embora Chaum não fosse um cyberpunk ele certamente inspirou fortemente o movimento.

Em meados de 2008, a ideia começou a ser discutida novamente por vários membros de uma lista de e-mails (The Cryptography Mailing List) de interessados em criptografia. Em outubro do mesmo ano, um programador sob o nome Satoshi Nakamoto descreveu uma moeda digital descentralizada, explicando elegantemente os conceitos em seu paper Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System, publicado nessa lista de discussão online.

Pouco se conhece sobre a verdadeira identidade de quem esta por trás do nome Satoshi Nakamoto.  Algumas pessoas acham que poderia ser o inventor do BitGold, Nick Szabo. Outras já acham que Hal Finney (que recebeu o primeiro bitcoin na transação realizada por Satoshi). Todos negaram. Não se sabe se Satoshi é um indivíduo ou um grupo de indivíduos. Na incerteza da sua verdadeira identidade, a clara certeza é que a sua contribuição tem o potencial para transformar globalmente a nossa sociedade.

Nesse post de Nakamoto no site P2P Foundation, ele explica seus fundamentos por trás do projeto: Elucida que o principal problema com os sistemas monetários convencionais é que eles precisam de muita confiança em terceiros para funcionar. Precisamos confiar na VISA para que possamos vender por meio de cartões, é necessário confiar que o PagSeguro ou o Paypal irão realmente saldar a minha conta quando eu vender alguma coisa na internet e da mesma forma, debitar esse saldo da parte compradora. Da mesma forma, é necessário esperar que um governo não inflacione muito sua moeda, mas a história mostra o contrário.

Em 2008, com a eclosão da crise do subprime - muito bem esclarecida no filme A Grande Aposta - nos Estados Unidos, deixou claro como as instituições financeiras podem ser fraudulentas e enganosas. Elas liberaram créditos sem garantias tendo apenas uma fração de reserva monetária. Esse falso crescimento e consolidação do setor imobiliário levou à uma bolha e uma crise globalizada sem precedentes foi iniciada.

No dia 03 de janeiro de 2009, nascia o Bitcoin, com a primeira transação realizada, transmitida na rede por Satoshi, registrada no bloco gênese - o primeiro bloco do blockchain - e acompanhada da seguinte mensagem:

"The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks"

A mensagem fazia referência à manchete do jornal The Times e deixava evidente a visão de Satoshi sobre o sistema bancário vigente e a calamidade financeira instaurada. Alguns dias depois da transmissão do bloco gênese, o cliente do Bitcoin v0.1 era disponibilizado para download.

CARACTERÍSTICAS DO BITCOIN

Algumas características que determinam que o sistema do bitcoin seja realmente de grande fascínio:

Rápido
Transacionar com bitcoin é tão simples quanto enviar um e-mail. Basta um celular com conexão à internet e o conhecimento da chave pública do recebedor para que uma quantia possa ser enviada para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, em pouco tempo.

Barato
Tarifas de transações na rede são relativamente baratas. Independente se a transação for de 100 reais ou 1 milhão de reais, a taxa paga aos mineradores será a mesma.

Recentemente com a popularização do Bitcoin no final de 2017, a taxa para transações aumentou exponencialmente. Isso se deve à capacidade de transações por bloco ser muito baixa (cerca de 3000 mil a cada 10 minutos, que é o tempo de criação de um novo bloco) em relação ao total de transações demandadas pela rede, causando lentidão no processamento das transações e aumentando o valor das taxas dos mineradores na rede do bitcoin. Essa situação promete ser solucionada com uma tecnologia chamada lightning network.

O Bitcoin é deflacionário
Em seu código está programado que não serão criadas - mineradas - mais de 21 milhões de unidades de bitcoins até o ano de 2140. Cada unidade de bitcoin é divisível em até 8 casas decimais (0,00000001 bitcoin).

Sendo assim não podem ser "impressos" mais bitcoins, tal como os governos fazem com o papel moeda, que por via de regra, é inflacionário. Dessa forma, 1 real ou 1 dólar sempre valerão menos do que o ano anterior, perdendo poder de compra ao longo do tempo.

Taxa de Emissão de Bitcoin

O bitcoin é escasso e que se aliado a uma alta procura e adoção e aplicação consolidada sempre tenderá a elevar seu preço. Existem cerca de 750 mil endereços de bitcoin criados. Em média, a cada 10 mil pessoas, 1 possui uma carteira de bitcoin.

Não confiscável
O governo tem poder para simplesmente confiscar e reter o dinheiro nas contas bancárias da população (como o que já aconteceu no Brasil no plano Collor, o qual chegou a gerar inflação de mais de 2000% em 1993).

Na rede do bitcoin, isso não é possível. Nenhuma entidade central pode impedir ou bloquear a carteira de bitcoin de alguma pessoa. Os bancos simplesmente não tem conhecimento, muito menos poder computacional ou jurídico para ter controle sobre o saldo de uma carteira que somente você tenha acesso.

Privacidade
Já sabemos que a transação na rede entre duas partes não depende de um intermediário e para efetuar uma transação, é necessário somente conhecer os endereços públicos das partes envolvidas.

Sendo assim, a identidade da pessoa por trás do endereço público não é divulgada na rede. A identidade de um usuário é conhecida somente se alguém souber que um endereço público está associado a uma determinada pessoa. Por esse aspecto, os usuários da rede são pseudo-anônimos.

Sua carteira é seu banco
O que os bancos fazem é custodiar a quantia de dinheiro que depositamos nele. Com o Bitcoin você consegue custodiar o próprio saldo e realizar transações. Além disso, uma carteira de bitcoins é equivalente ao próprio banco, pois com ela pode-se criar quantos endereços (contas) for necessário. Você é a custódia, realiza operações e cria novas contas. O mesmo que um banco faz para você, mas sem um banco e as taxas absurdas.

Potencial ferramenta contra a pobreza
No Brasil, cerca de 50% da população não possui e/ou não estão aptos a possuir uma conta bancária. Imagine em países isolados e regiões distantes ou aqueles como Venezuela ou o Zimbábue, onde são assolados pela crise e hiperinflação. A moeda nesses países é incrivelmente desvalorizada.

Muitos países não possuem uma infraestrutura bancária eficiente ou ela é inexistente. Essas pessoas ficam de lado em relação ao acesso a um sistema financeiro.

Para transacionar bitcoins somente é necessário um celular e acesso à internet e como mencionado, conhecer a chave pública do recebedor. Por isso o bitcoin tem o potencial de tornar público e sem restrições o acesso de milhões de pessoas a um sistema financeiro global.

O Bitcoin pode ter sido o começo de um grande experimento socieconômico do novo milênio. O que o e-mail fez com a informação, permitindo troca de comunicação com uma pessoa do outro lado do mundo, o Bitcoin tem a capacidade para fazer com o dinheiro. É a evolução da Internet da Informação para a Internet de Valor. O Bitcoin possui potencial para reformular o tecido econômico da sociedade moderna. O que for feito hoje a favor dessa disrupção nos contará o seu trunfo ou seu fracasso.